Carta ao meu filho

Há um ano, dia 23 de agosto, você, meu filho, foi arrancado de dentro de mim antes do nosso tempo e da maneira mais violenta que uma díade mãe/filho jamais deveriam experienciar. Isso, filho, me deixou marcada não só na barriga, mas na alma – uma ferida, diferente do ventre, impossível de cicatrizar.

Eu demorei anos pra decidir se queria mesmo ter um filho! Eu não queria uma produção independente. Queria alguém que comigo também desejasse e fosse consciente ao meu lado, que partilhasse comigo essa difícil e responsável jornada de uma criança na vida!

Até que chegou seu papá em minha vida, fillho, um amor doce, calmo, sem rompantes de paixão! Uma criancinha, filho, nasceu em nossos pensamentos enquanto ainda éramos enamorados!

Infelizmente no primeiro ano de nossa união, seu irmãozinho ou sua irmãzinha, não sei, antes mesmo de chegar foi embora, me deixando sair da maternidade não só com o útero, mas com os braços vazios e um coração estilhaçado! Como alguém que perde um grande amor, eu não queria uma nova relação, queria expulsar primeiro aquela dor de dentro de mim e estar pronta para amar outra criança!

Então a mamã resolveu cuidar do corpo e da alma pra te desejar, filho!

Então, numa noite muito mágica, aniversário do dindinho Renê, eu e teu papá tivemos um ritual de amor, após o Banquete de Platão, regado a vinho, frutas, poesia, filosofia e amor de Eros no Teatro Oficina, dia 12 de dezembro de 2009, numa sexta-feira em noite de lua minguante! Foi mágico filho! Mamãe sentiu-se como um Deusa, muito amada! O amor numa flechada de Eros foi tomando conta de todo corpo e alma da mamãezinha e aquela dor de teu (ua) irmãozinho(a) já não existia mais! Foi nessa noite sagrada, que eu e teu pai, nos amamos filho e você quis se instalar no útero quentinho da mamã! E a partir daí a mamã cuidou tão bem do corpo, comendo só coisas saudáveis para que eu e você ficássemos bem fortes!

Mamã e papá viajaram para as terras do papá só pra contar pro vovô e pra vovó que você já existia dentro da mamã. A vovózinha não cabia em si de tanta alegria! Conheci o lugar lindo onde o papá nasceu, conheci também outros lugares maravilhosos, inclusive um que batizei de terra da liberdade onde eu e seu pai vivemos momentos muito felizes!

Voltamos ao Brasil e preparamos nossa casa, para que ela virasse um lar pra você, filho!

Precisávamos dar-te uma identidade e a mamã pensou que já que você nasceria na terra brasilis, seria justo o reconhecimento no teu nome das origens da mamã. Teus bisavós, filho, tanto por parte do vovô, como da vovó, têm ascendencia indígena e africana! Então começamos a pesquisar vários nomes. De surpresa, uma noite, a mamã teve um sonho! Sonhei com três gatos que saíam detrás da geladeira, dois se enroscaram nas pernas da mamã e um pulava nos meus braços. Esse, entretanto, era lindo e doce, tinha um peito cor de rosa e as costas azul e se aninhava no meu colo como um bebê! Teu pai aparecia me dizendo que eu tomasse cuidado, porque gatos transmitem toxoplasmose e blá, blá e blá! Eu apenas disse-lhe que ficaria com os gatos, porque gato representava cura! Acordei desse sonho com uma sensação boa de ternura, carinho e emoção!

Pensei: acho que eu e essa criança estamos protegidos por Bastet, a Deusa do Egito que simbolizava carinho, ternura e proteção a gravidas e crianças! A Deusa da infância! Corri a pesquisar como se chamava gato em tupi-guarani e encontramos Yawara! Num dos exames de ultra-som morfológico, descobrimos que tu eras um menininho e teu papá achou por bem colocar na frente de Yawara outro nome indígena que representasse homem, pessoa. Foi quando encontramos naquela lista que fizemos: Abá!

Abá Yawara!

A partir daí fomos descobrindo tanta sinergia com teu nome, filho, que vale a pena deixar registrado. Veja:

Nome nativo de nosso Brasil, de origem tupi-guarani e afro-brasileiro, e só depois viemos descobrir que também há outros significados em outras nações e para os povos antigos, tornando este nome composto um nome quase universal.

Abá

  • homem ou mulher, pessoa, índio (tupi-guarani);
  • esperança (afro-brasileiro);
  • poder de inventar as coisas, tudo que imaginar poderá criar (africano);
  • pai, nosso pai, o senhor vem (aramaico);
  • rei da selva (Sri Lanka);
  • velho sábio (nagô)

Yawara

  • gato, onça, lobo, jaguar e cão(tupi-guarani);
  • arte suave, flexibilidade, suavidade, ligado às artes marciais do judô, ajuste do corpo e das articulações(japonês).

Abá Yawara

O Nome composto significa para os povos antigos e xamânicos e para os estudos dos Mitos e Histórias do arquétipo da Mulher Selvagem na psicologia analítica:

  • Homem Lobo;
  • Mulher Loba;
  • La Loba;
  • Deusa de todas as coisas e de todos os seres;
  • Aquele ou aquela que tudo sabe, la qué sabé.

Bom filho, depois de toda esta magia na tua concepção e na força poderosa q veio com teu nome, tudo o que a mamãe desejava era ter você de maneira normal, tranquila, natural, mas fui ingénua, deixei-me ficar numa situação que nos levou pra outro caminho.

Mamã sentiu-se fraca, sem poder, desprotegida da maldade de pessoas desse mundo que preferem o que é mais rápido e fácil, em detrimento do que é mais humano. Por que a maior parte da sociedade ainda nega que é humana e que é preciso que respeitemos a nossa natureza?

Não sei filho, existem perguntas que deixam a mamã sem resposta.

Foi assim filho, sem ser a nossa hora, que você foi apartado do quentinho de dentro da mamã, sem que a gente fizesse força, lutasse pela vida, ficasse até cansado de tanta adrenalina pra nos encontrarmos.

Quarenta minutos para preparar a mamã e, feito a vovozinha da capuchinho vermelho que saiu da barriga do lobo, você saiu da mamã em apenas 5 minutos às 23:28 da noite de 23 de agosto de 2010, no bairro do Bexiga, aqui do lado da nossa casa, no hospital Pro Matre.

Incrivel! Você berrou com uma revolta que me arrepia ate hoje e gritou Abá!

Chorei tanto filho! Queria ter chorado de alegria e emoção, mas chorei de tristeza e agonia! Queria-te em meus braços, nus nós dois, feito bicho selvagem, eu queria lamber-te, eu queria amamenta-lo enlouquecidamente aquela noite todinha, eu queria uivar pra lua no céu!

Mas… a mamã estava sedada, amarrada, cortada, sendo costurada feito uma loba malvada, uma bruxa que devia ser castigada por ser mamífera, mãe, mulher!

Não contente com esse apartheid, novamente me levaram você pra longe de mim filho, por quatro horas, ate que a mamãe se recuperasse da maldita anestesia! Tia Paloma correu desesperada atrás de ti, porque o papá estava lá dentro com a mamã, a vovó, a tia naide e os dindos subiram devagar para o berçário. Tia Paloma correu feito outra loba braba! Ficou a olhar-te pelo vidro, você sozinho na incubadora a procurar o limite do útero da mamã levantando os bracinhos! Chorou de tristeza!

Ah filho! Perdoa a mamã por não ter sido forte pra lutar contra essa forma desumana de nascer! Eu lá na recuperação só pensava em ti, no momento de tê-lo em meus braços, filho!

Quando fui pra o quarto as 3:30 da manhã, finalmente você chegou! Você estava estranho, mamã estava estranha! Eu não sabia se você me aceitaria depois daquele momento horrível! Você estava dormindo, só queria dormir, não queria mamar. O médico disse que você estava usando uma reserva da mamã que o alimentava, que você não sabia que tinha nascido (e como poderia saber, se foi roubado de dentro de mim, nem lutou pra sair?) e por isso só dormia! Entao eu quis ficar com você assim, encostado ao meu corpo nú, no meu colo, no peito. Ficamos assim toda noite, você ouvindo meu coração bater triste! Mas esse contato me encheu de tanto amor que me senti melhor, mais forte e so pensava o quanto eu queria amamenta-lo!

Depois de 4 dias no hospital, você, apesar de ter uma boa pega (q nunca machucou a mamã), mamava pouco, só queria dormir. Eu não queria errar de novo com o médico que cuidasse de você e pensei: agora quero uma mulher! Encontramos uma que disse que você estava muito magrinho, que não ganhava peso e que teria de tomar outro leitinho que não era da mamã pra engordar. Mamã aceitou, porque a vovó dizia que tinha de ser assim mesmo, que a mamã tinha pouco leite e não te sustentava.

A mamã começou a sentir-se uma loba fraca de novo. Mas eu não largava você do meu colo. De noite quando ninguém via, mamã botava você no colo pra sugar o seio tanto quanto você quisesse e uivava pra lua pela janela do seu quarto!

foto amamentacaoFoi assim que nós dois continuamos a nutrir e ser nutrido todas as noites sem aquele maldito leite que a vovó fazia carinhosamente para você durante o dia!

Isso deixou a mamã uma loba forte filho e abandonamos essa medica, procuramos outra. Vovó voltou para perto do vovô. Mamã ficou agora sozinha contigo e foi aos poucos trocando esse leite só pelo seio da mamã! Você ficou com esse leite traidor só para antes de dormir até que um dia você mesmo tomou atitude de trocar pela teta da sua mamã loba! Foi lindo filho!

Mamã encontrou outras mulheres lobas poderosas que dão leite da teta pra seus filhotes e nos unimos para ficarmos fortes e lutarmos para que o leite humano seja reconhecido como melhor alimento para os filhotes humanos!

Assim estamos até agora filho, você é uma criança rica de amor, conhecimento e vínculo materno! Você é saudável, forte e inteligente! Saiba que só ganhamos toda vez que nos unimos! Vencemos!

Com amor incondicional e eterno

Mamã Naíme

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